Inovação

O desafio da mudança – Porque é tão difícil inovar em empresas estabelecidas

Inovação é uma das palavras mais faladas do momento dentro das empresas. Nesse post vou descrever minha percepção sobre a dificuldade das empresas estabelecidas em inovar seus processos, produtos e serviços. O que vou descrever aqui é baseado em minha própria experiência de 10 anos trabalhando com desenvolvimento de software (circulando por todas as áreas da empresa e 7 anos destes na liderança), das trocas de conhecimento através de amigos, eventos e livros que leio.

Hoje em dia ninguém mais questiona que inovar é uma questão de sobrevivência para as empresas e não mais uma questão de luxo. Há um número tão grande de artigos falando sobre isso no Google que nem vou detalhar muito a questão. Mas reconhecer que realmente é necessário não torna a tarefa mais fácil.

Antes de expressar porque é tão difícil inovar, vamos primeiro definir inovação, de acordo com a minha opinião é claro. Mesmo porque, outra coisa que gera centenas de resultados no Google é o conceito de inovação. Eu já vi muitas pessoas e áreas sendo inovadoras e não percebendo porque acham que inovação tem que ser aquela coisa que revoluciona ou como está na moda, tem que ser disruptiva. Só que não é todo o dia que surge um Uber ou Airbnb. O que as empresas mais inovadoras fazem são centenas de pequenas inovações e as vezes algo grande, mas a inovação grande só acontece pela diversidade de pequenas ações. Não podemos ficar maravilhados com as exceções, mas devemos sim nos inspirar.

Eu gosto de pensar que toda a forma nova de gerar valor em processo, produto ou serviço é inovação. Gosto do conceito mostrado no livro Business Model Generation do Alex Osterwalder (criador do Business Model Canvas) que mostra que a inovação em uma organização pode vir de vários pontos do modelo de negócio (partindo do princípio que você conhece o business model canvas). Ele apresenta no livro os epicentros de inovação, que mostra que de dentro de uma organização podemos inovar gerando uma nova receita, reduzindo os custos, criando uma nova proposta de valor, atendendo um novo segmento de cliente, criando novas parcerias, enfim, se pode inovar a partir de qualquer ponto de partida do modelo de negócio.

Agora vamos ao assunto principal.

 

Porque é tão difícil inovar em empresas estabelecidas

Essa é uma questão com mais de uma resposta, e com um certo nível de subjetividade também. Então vou procurar descrever o que entendo que são as principais causas da dificuldade de se inovar.

 

1 – Inovação não é pauta em nenhum momento da empresa

Sim, inovação é importante, é questão de sobrevivência. Sendo assim, que tempo você dedica para falar disso ? Você falar com seus colegas sobre isso? Fala com seu líder? Nas reuniões periódicas tem esse momento ? Você sabe o que seu concorrente está fazendo ? Esse é o ponto, em muitos lugares da operação até as lideranças simplesmente ninguém dedica tempo para falar sobre inovação.

As pessoas que fazem a operação acontecer chegam todo o dia, abaixam a cabeça e começam a trabalhar. O mesmo acontece com a gestão, monitorando freneticamente se todos estão a fazer o trabalho. E assim, no automático, todos seguem e nada muda.

Como contornar isso ? Dedique nem que seja 10 minutos do seu dia para falar sobre inovação. Prefiro falar”dia” porque acho que 10 minutos todo o dia são mais produtivos do que 1 horas por semana ou mesmo um encontro maior por mês, gosto mais da constância do que do volume em si. Se você é um líder, procure juntar sua equipe e trocar com eles o que pode ser feito diferente, o que outras áreas estão fazendo, o que outras empresas estão fazendo.

Acredito que só com isso já nasce uma atitude diferente onde novas ideias podem surgir e depois até novas ações. O que não podemos é querer ter uma empresa inovadora se as pessoas não param nunca para sequer pensar sobre isso.

 

2 – O modo de operação padrão da empresa elimina a inovação

Se analisarmos como uma empresa cresce nos formatos tradicionais vamos ver o seguinte comportamento:

  1. A demanda por um produto ou serviço cresce.
  2. Para suprir essa demanda a empresa cria processos para que possa tornar essa entrega de produto ou serviço repetível e manter a qualidade o máximo possível.
  3. Para garantir que o processo e a qualidade estão com níveis aceitáveis, se cria os famosos indicadores chaves de perfomance, e assim se segue tentando extrair o máximo de resultado possível eliminando o desperdício tudo que se pode em cada parte do processo.

Não há nada de errado com os 3 passos acima, mas geralmente deles surge um comportamento que acredito ser prejudicial para inovar. Esse comportamento é que cada falha é duramente penalizada, pois faz com que uma pessoa, área ou a empresa não atinja os indicadores estabelecidos.

Como ninguém quer ser punido ou mesmo perder seu emprego ou em alguns casos “quebrar a empresa”, todos fazem sempre a mesma coisa para garantir que não aconteça falhas. Esse comportamento cria uma cultura nas pessoas que fazem elas temer o risco de fazer algo novo com todas as forças. E a inovação ? Pois é, alguém nesse meio nem pensa em inovar para não se prejudicar.

Outro ponto que é afetado por esses 3 passos é que criamos grupos de pessoas especialistas, que sabem fazer uma única coisa bem feita, e onde todas as conversas são em torno do mesmo assunto, processo, produto ou serviço. Dependendo de como a empresa se comunica, as pessoas nunca tem a noção de como a empresa funciona como um todo ou em que contexto estão inseridas. Isso é outra coisa que dificulta a inovação, se eu não sei onde estou, como posso opinar para onde podemos ir ? Como posso contribuir para melhorias se eu não sei de onde vem algo que preciso entregar e para onde vai depois que eu termino?

Como contornar isso? Uma medida para reduzir esse problema é dedicar um tempo da sua operação ou do seu dia a dia para fazer as coisas um pouco diferente e avaliar o resultado. Escolha uma hora do dia, ou uma pequena porção do trabalho que não seja muito impactante e faça as coisas diferentes. Tenha em mente que pode ser pior do que você já faz, mas também pode ser melhor. Se não arriscar nunca vai melhorar. Tenha isso em mente também, inovar é se arriscar, é ir em direção a incerteza.

Para resolver a questão dos especialistas, tem emergido atualmente (na verdade nos últimos 5 anos eu diria) empresas montando equipes multidisciplinares. Digamos que você tem na sua empresa uma área comercial, uma área financeira e uma área de operação com dezenas de pessoas divididas em processos e que nunca se comunicam ou trabalham distantes fisicamente mesmo para atender 5 mil clientes. Já pensou em montar um time de 5 a 10 pessoas para atender a uns 500 clientes, onde esse grupo pode fazer todos os processos em conjunto. Parece loucura ? Bem, somente porque estou sendo muito breve, mas esse tem sido o modo de operação das novas empresas e startups que tem surgido, algumas já tão grande quanto a sua empresa em alguns casos. Para aprofundar nesse assunto recomendo o livro A empresa conectada do autor Dave Gray.

 

3 – Quando se pensa em inovação, se pensa para TODA a empresa e se planeja cada detalhe antes de começar

Da forma que escrevi esse terceiro item parece que estou colocando como negativo uma coisa positiva. Mas o quero dizer é que é natural para empresas estabelecidas terem boas ideias, mas na hora de executar não realizam isso tão bem. O principal motivo é a velocidade, parece que quanto maior a empresa mais lenta ela é para liberar inovações no mercado. Deveria ser exatamente o contrário, dado que recursos financeiros não é problema geralmente.

O que mais gera essa lentidão é o excesso de planejamento, se costuma planejar cada detalhe e só começar a executar depois que cada mínimo detalhe está formalizado, alinhado e aprovado por dezenas de diretores e executivos. Não conversam ou escutam o cliente em momento algum e conduzem tudo as guardado a 7 chaves no máximo segredo. O resultado final é que as vezes se passa seis meses planejando, seis meses desenvolvendo e quando o produto entra em contato com o cliente, ele simplesmente não gosta e tudo desmorona. E então se começa a procurar os culpados que planejaram errado.

Como contornar isso ? Ao identificar que se tem uma boa ideia procure validar ela com um cliente o mais rápido possível. E quando digo validar, é fazer um piloto, um teste, um produto mínimo viável(MVP como está na moda), é realmente fazer uma versão muito simples da ideia com um grupo seleto e se der certo ampliar.

O que realmente nos diz se um produto é bem sucedido é o retorno do cliente, como podemos desenvolver um produto ou serviço sem envolver o cliente diretamente. As empresas estabelecidas tem o que as startups mais desejam, milhares de clientes. Mesmo assim na hora de desenvolver um novo produto ou serviço fazem como se já soubesse o que o cliente deseja e isso geralmente não acaba bem.

Gosto muito do case da General Eletric (centenário e um dos maiores grupos empresariais do mundo) chamado FastWorks. Foi um programa criado pela GE em parceria com Eric Ries (autor do Lean Startup) para aplicar o modo de operar e os princípios do Lean Startup em uma empresa com o tamanho da GE.

No livro The Startup Way esse caso é muito bem detalhado, mas me chamou atenção uma reunião que Eric estava tendo com a GE onde discutiam o lançamento de um novo motor que a GE estava desenvolvendo. Eles consideraram que ia levar 5 anos para colocar esse novo motor no mercado. Em meio a várias discussões durante a reunião Eric interrompeu:“Senhores, não estou falando de colocar uma nova linha de distribuição desse motor para todo o portfolio de produtos da GE, estou propondo colocar um motor em um cliente e avaliar o resultado”. As palavras não foram exatamente essas, mas o motor foi colocado para funcionar como teste em um cliente em poucas semanas tendo em vista essa premissa.

Esse é o ponto que me refiro quando digo que se pensa para toda a empresa quando se fala em inovação em empresas estabelecidas e isso atrapalha. É necessário começar a pensar diferente, pensar que só temos uma hipótese de produto ou serviço e procurar colocar o mais rápido possível com o cliente para validar o produto ou serviço, coletar o retorno do cliente e evoluir. É normal em empresas grandes ao se deparar com uma ideia ter a questão: Como fazemos isso para 200 mil clientes? A empresa não sabe se realmente é viável a ideia e já está pensando em começar com 200 mil clientes ? Deve ser primeiro pegar um número seleto de clientes e propor um teste como já citado acima.

 

4 – Somos naturalmente resistentes a mudança

Inovar é mudar, e é da nossa natureza não gostar da mudança. Todos somos resistentes a mudança em algum nível, mesmo os mais inquietos e ditos como inovadores são resistentes a mudança quando algo vai de encontro ao que eles acreditam.

Eu trabalho em uma empresa que tem uma grande fome por inovação. O apetite da gestão por mudança e melhoria contínua é constante, começa no presidente e vem descendo. Mesmo assim não é nada fácil fazer essa atitude se perpetuar por todos os colaboradores da empresa. É muito comum quando se fala em mudança, acender um alerta de problema na cabeça das pessoas. Somando isso as experiências passadas das pessoas, que tem esses mesmos problemas que cito nesse artigo e se tem um grupo de pessoas que mesmo muito competentes tem aversão a mudança.

Acredito que meu principal desafio hoje é criar um ambiente em que as pessoas abracem a mudança como positiva.

Como contornar isso ? Bem, essa nem eu mesmo tenho resposta, já que sou parte inerente do problema. Também tenho meus momentos de resistência. Coloco esse item apenas para termos ciência que quando o assunto é mudança, as pessoas realmente são complicadas e tudo o que você fizer pode funcionar para uns e outros não. Acredito que o que se pode fazer nesses casos é seguir os passos citados acima. Tire um tempo para falar sobre inovação/mudança, para fazer algo de forma diferente, quando as coisas derem errado, não banalize, procure tirar algum aprendizado e entender porque deu errado, sem prourar culpados e tentar novamente. Uma frase que para mim faz sentido é: “Se algo está muito difícil de ser feito, faça mais vezes”.

 

5 – Tudo se resume na cultura na empresa

Se eu tivesse que responder em uma frase por que é tão difícil inovar em empresas estabelecidas, eu responderia que é por causa da sua cultura e fim.

A cultura de uma empresa compreende todas as rotinas, hábitos, crenças, valores e comportamentos em geral de seus colaboradores no ambiente de trabalho. São aqueles hábitos que surgem naturalmente no dia a dia das pessoas. E isso pode ser bom ou ruim, ela existe da mesma forma.

Tem uma frase bem famosa que diz que a cultura devora a estratégia no café da manhã. E realmente é verdade. Quantas vezes temos ideias e planos bem fundamentados mas que por causa do ambiente, do modo das pessoas trabalharem e interagirem não dão certo. É a cultura agindo contra a empresa, e ela mesmo foi a responsável.

E na sua empresa, será que a cultura contribui para a inovação ?

Dizem que em pouco tempo a experiência vai suplantar o preço, que as pessoas vão valorizar mais a experiência e facilidade de uso de produtos e serviços do que apenas o preço. Isso também afeta as empresas e o relacionamento com seus colaboradores, afinal de contas, com clientes tão exigentes na hora de comprar um produto ou serviço, para trabalhar seria diferente ? Seguindo a mesma linha de pensamento, acredito que a cultura e o propósito das empresas vão suplantar os altos salários, ou o salário já não vai ser o único atrativo das empresas, nem o mais importante. Cada vez mais vamos ver uma pessoa indo para uma empresa ganhar menos porque se identifica com a cultura, os valores e o propósito da empresa existir.

Como contornar isso? Sendo a cultura algo que surge naturalmente da soma dos comportamentos de seus colaboradores ela obviamente não pode ser controlada. Uma empresa é um organismo vivo em constante adaptação, ou seja, com uma complexidade muito alta. Filosoficamente falando as empresas não existem, o que existe são as pessoas e o resultado do trabalho coletivo delas. A teoria da complexidade nos diz que para controlar algo complexo é necessário algo de complexidade superior ao que se quer controlar. Logo não podemos controlar um grupo de mil colaboradores em uma empresa pois necessitaria de uma mente mais complexa que a soma dessas mil pessoas e isso não existe.

Mesmo assim, não significa que a cultura da sua empresa não pode ser percebida e direcionada para um caminho melhor. Eu acredito que nós podemos sim projetar uma cultura que abrace a inovação e influencie todas as partes da empresa positivamente.

Para entender a cultura da sua empresa e até mesmo compartilhar isso com outras pessoas recomendo o Mapa da cultura, explicado nesse artigo e que foi criado por Dave Gray e o pessoal da Strategyzer. Basicamente se resume a um canvas com 3 quadrantes: resultados, comportamentos e facilitadores/bloqueadores.

Você começa mapeando os comportamentos. Que atitudes, condutas ou até mesmo palavras você nota dentro do seu time, departamento ou empresa. Por exemplo, é hábito no time uma cadência de reuniões a cada X tempo. Depois você mapeia os resultados. Quais são os resultados concretos bons ou ruins que derivam desses comportamentos. Por exemplo, a reunião a cada x tempo ajuda a identificar obstáculos de processo mais rapidamente. Por último você vai para os facilitadores/bloqueadores. Procure identificar as coisas que geram comportamentos positivos ou negativos dentro da sua companhia e que vão influenciar os resultados da empresa mais tarde. Por exemplo: um local de trabalho onde as pessoas são interrompidas a todo o instante e precisam de concentração.

O mapa de cultura é uma ferramenta visual com foco na cultura da empresa e tem por objetivo deixar explícito o que pode estar contribuindo ou prejudicando os resultados da empresa. Vale a pena o exercício. Mas tenha em mente que o resultado nem sabe é o que você gostaria, as vezes pode revelar coisas desagradáveis, mas acredito que faz parte do processo de quem deseja um cultura pessoas de alta performance.

Eu penso que até se pode provocar uma mudança na cultura de uma empresa partindo de baixo para cima, mas a verdadeira mudança só acontece de cima para baixo. Se a alta gestão não comprar essa ideia ela não tem vida longa e a coisas voltam a ser como eram. Então se você acha que a cultura da sua empresa precisa se reinventar, busque apoio da alta gestão.

 

Conclusão

Inovar nas grandes empresas é muito diferente das pequenas e médias, porque elas tem muito mais a perder, tem provavelmente uma marca forte, um número de clientes enorme para zelar e uma meta de resultados para apresentar a seus acionistas. Frente a tudo isso elas evitam o risco, porque administram suas empresas muitas vezes com paradigmas que não estão alinhados com nosso tempo presente de alta conectividade. Ë necessário repensar a forma como o trabalho acontece dentro delas.

Espero ter resumido nesse artigo alguns elementos que impedem as grandes empresas de inovar. Se elas não arriscarem fazer algo diferente, um risco maior surge mais a frente. Outra empresa arrisca e tem sucesso, com o tempo se torna mais relevante. Gosto da frase que diz que a melhor forma de evitar que seu negócio seja destruído é destruindo ele primeiro.