Conecta Imobi 2018

Conecta Imobi 2018 – AI, Big Data, experiência do usuário, startups e incertezas

Faz 4 anos que participo do Conecta Imobi. Para quem atua no mercado imobiliário é, sem dúvida, o evento mais relevante do setor. Tem uma diversidade de conteúdos e pessoas do Brasil todo. Achei que este ano foi o melhor até agora e também o mais provocador em relação ao futuro do mercado imobiliário.

Vou descrever um pouco a minha percepção em relação ao evento e o que podemos esperar do mercado. Eu sou da área de TI, e apesar de ser um evento de marketing imobiliário, sinceramente quase não vi diferença para os eventos de tecnologia que costumo ir e, é ai que já podemos ver tudo se transformando.

Um pouco dos anos anteriores

Os eventos de 2015 e 2016 eu percebi que a grande onda era o digital mesmo. O consumidor já estava intensamente no digital, mas parece que muitos (principalmente as pequenas e médias) ainda não acreditavam ou não sabiam como se posicionar para esse novo consumidor. Também se falou bastante no uso de dispositivos móveis (o uso de apps e sites responsivos) e marketing de conteúdo (o que é, como fazer e cases).

Ano passado, na edição de 2017, a importância do uso de dispositivos móveis já não precisava ser provada, o marketing de conteúdo também não. Mas como fazer isso corretamente? Teve muitas palestras sobre como mapear a jornada do cliente, definir um funil de vendas e definir uma estratégia de conteúdo.

Um dos assuntos que também marcaram na edição de 2017 foi a introdução do assunto se o corretor seria substituído pelo uso de novas tecnologias ou não, e como resolver o problema da falta de retorno no atendimento. Vi mais de uma palestra mostrando que a geração de leads não será necessariamente um problema/desafio, mas atender com agilidade sim. Também em mais de uma palestra vi citarem que o próximo movimento seria as imobiliárias ou agências constituírem um departamento para fazer um primeiro atendimento, qualificar o lead e só então passar para o corretor fazer a venda.

E sobre o Conecta Imobi 2018?

Para mim o evento foi tomado por 5 tópicos principais: inteligência artificial, big data, experiência do usuário, marketing de conteúdo, startups entrando no mercado imobiliário e novos modelos de negócio em um mercado se transformando através do uso intenso tecnologia.

 

1 – Inteligência Artificial (IA)

É o assunto mais falado do momento em todos os mercados e no Conecta não foi diferente. Tenho certeza que todos saíram do evento pensando que precisam de um chatbot o mais rápido possível. Acredito que poucos compreenderam realmente a mensagem quando viram algumas palestras falando de IA.

O primeiro assunto que vi emergir é o já clássico “o robô vai roubar o meu emprego”. E quando se fala em IA é como se surgisse um confronto do homem contra a máquina, ou no evento em questão, do corretor de imóveis contra a máquina. Alguns sentem medo e outros sentem-se desafiados.

O ponto fundamental para mim é que todo o trabalho repetitivo vai sim ser delegado para a tecnologia, pois quando se fala em repetição a máquina é imbatível. E quando falo trabalho repetitivo é todo mesmo, inclusive o atendimento (porque é aqui que todos duvidam), pois quem trabalha com atendimento sabe que há muita repetição nele.

Algumas empresas mostraram como estão utilizando IA para várias questões e fizeram parecer muito simples, mas não se engane, não é. Não podemos nos iludir por ver as grandes empresas e startups que nasceram da tecnologia utilizando chatbots, machine learning e outras siglas legais e achar que já vai conseguir utilizar também. É necessário investir tempo, dinheiro e evoluir através do erro e acerto.

O que os corretores e imobiliárias devem fazer agora é olhar para os seus processos, mensurar o máximo possível, identificar que partes são sempre iguais, buscar tecnologias para automatizar e se especializar no que realmente gera valor para o cliente. E o foco não está na otimização do processo, mas sim na melhoria contínua da experiência do cliente.

 

2 – Big Data

Big Data nada mais é do que a analise e interpretação de um grande volume de dados. Podemos dizer de certa forma que todos já estamos conectados, seja através de smartphones, tablets, computadores, relógios, pulseiras, equipamentos que usam comando de voz e muitos outros dispositivos.

O que essa grande quantidade de dispositivos está fazendo é gerar dados a todo o instante sobre vários aspectos da nossa vida. Principalmente nosso comportamento, seja no modo de consumir, dormir, se exercitar, estudar e inúmeros outros pontos.

Desse grande volume de dados (Big Data) é possível fazer análises e extrair informações de um valor imensurável. Imagine saber os hábitos de consumo da população, que horas, onde e como eles vão estar. De posse de toda essa informação as empresas podem produzir todo o tipo de solução.

Para o mercado imobiliário acredito que fica a pergunta se estamos capturando e analisando todos os dados de circundam os nossos processos. Será que registramos todos os contatos que recebemos, suas preferências, todos os atendimentos que fizemos, o que eles gostaram ou odiaram, porque compraram ou porque não compraram. Sua imobiliário tem um CRM? um software de BI? Se tem, há alguém que saiba interpretar esses dados?

Vão se diferenciar as empresas que tirarem o melhor proveito dos dados e em muitos casos dos dados que elas já possuem em casa e não aproveitam.

 

3 – Experiência do usuário

Ainda esse mês fui em um evento de inovação onde o Head da divisão de Aplicação de Negócios da Microsoft, Fabio Azevedo citou um estudo que eles fizeram que até 2020 a experiência do cliente vai superar o preço e o produto como principal diferencial das marcas. As pessoas estão cada vez mais escolhendo produtos e serviços pela sua facilidade de uso, pela boa experiência que tem em entrar com contato com eles.

No conecta se falou muito disso, as imobiliárias e corretores deveriam olhar mais para a experiência em um processo de compra ou aluguel de imóvel. Falamos tanto de digital e estamos de fato digitalizando praticamente tudo, mas estamos levando em conta e experiência do cliente? É o processo de comprar ou alugar o imóvel na sua empresa um momento que o cliente passaria novamente sem traumas ou lembranças ruins? Você está registrando tudo isso para poder aprender e evoluir?

Quando falamos de experiência é de uma forma bem ampla mesmo, do momento que um possível cliente tem contato com a sua marca até o fechamento de uma compra. Precisamos levar em conta se o site, aplicativo ou anúncio que você faz é intuitivo, se quando ele entra em contato recebe retorno rapidamente, se você facilita as burocracias que sabemos que são muitas, enfim, todo o processo.

Cada vez mais as experiências positivas vão marcar tanto quanto o preço.

 

4 – Marketing de conteúdo

Esse é outro assunto que vem sendo falado muito há uns 5 anos. Acredito que já tem muita gente que entende que marketing conteúdo é importante, mas na hora de fazer é que a coisa complica. Todo mundo acha que tem que ter um blog, fazer uns posts no Facebook e como video está na moda, porque não fazer um canal no Youtube. E ainda tem aquelas empresas que fazem tudo isso para falar de seus produtos e serviços exclusivamente, como em um monólogo.

O que as empresas precisam é de uma estratégia de conteúdo, com um público-alvo definido e um objetivo a ser alcançado. É preciso definir personas (personagens) que represente os diferentes tipos de público que consomem seus produtos e serviços. Entender quais são suas principais e comportamentos atividades, que problemas ou necessidades eles possuem e como você pode produzir um conteúdo/informação que gere valor para eles.

Todo o processo de compra tem seus momentos, para cada momento há dúvidas e objeções. É necessário entender a jornada de compra do cliente, e gerar um conteúdo de valor que ajude a fazer toda essa jornada uma boa experiência. Também é necessário se aproveitar de todas as mídias, o consumidor hoje é intenso, ele está no Google, nas redes sociais, vendo videos, acessando a mesma informação em vários canais diferentes. A sua estratégia de conteúdo deve contemplar isso.

 

5 – Startups no mercado imobiliário e novos modelos de negócio

As startups realmente acordaram para o mercado imobiliário, eu trabalho a quase 10 anos nesse mercado, e em uma grande empresa do setor. Como um profissional de tecnologia estou sempre vendo soluções que podem somar aos nossos produtos e serviços e sempre achei o nosso mercado muito carente de soluções que agilizem todos os processos que existem na compra e venda de imóveis.

O Conecta esse ano deu uma atenção especial as startups, teve até uma batalha de startups com cada empresa fazendo um pitch de 3 minutos. Eu vi várias soluções criativas para problemas que as grandes empresas não conseguem resolver atualmente ou nem tinham percebido que o problema existia.

Algumas estão tentando facilitar o modelo atual de comprar ou alugar um imóvel, entrando com soluções para ajudar o corretor a vender com mais facilidade, ou mesmo ajudando o comprador antes e depois da compra. Outras estão tentando mudar o mercado radicalmente, mostrando software como plataformas que dispensam o papel do corretor ou da imobiliária em um processo de compra e venda.

Me chamou atenção lá presente o Mithub, que é uma iniciativa formada por Grupo ZAP, Cyrela, CCP, Brasil Brokers, Construtech Ventures, Athié Wohnrath, MEZA, Distrito, BNZ e Closed Gaps. Eles tem o objetivo de fomentar o mercado de startups voltado para o mercado imobiliário. Vale a pena ver as startups que essa turma está investindo.

Teve também algumas palestras mostrando como as grandes empresas estão se utilizando de uma gama de startups para inovar dentro da sua organização, trazendo tecnologia e cultura que é difícil desenvolver em uma empresa estabelecida com anos de história.

Acredito que esse realmente é o caminho, as grandes tem um modo de pensar diferente, resistem a fazer mudanças fora do status quo. Se aproximar das startups para complementar seus produtos e serviços é uma estratégia positiva. Não podemos ver as startups como um mal que está se aproximando para destruir o negócio existente.

O que mais gosto no modo de pensar das startups é que elas operam de forma natural pensando na experiência do cliente, na simplicidade de resolver os problemas experimentando, na tentativa, erro e evolução constante.

 

Conclusão

Eu não acredito que o corretor ou a imobiliária irão se extinguir em virtude das novas tecnologias que já estão no mercado, essa pergunta pairou na cabeça de todos ao meu ver. Mas ambos vão ter que se adaptar e se especializar, inclusive o modelo de negócios.

Tem sim pessoas que hoje já possuem a cabeça aberta para fazer um processo de compra 100% digital, mas acho que ainda vai levar alguns anos para isso amadurecer. Ainda temos o principal público (compradores e vendedores) com baixa confiança em um processo que eles tem pouco contato humano.

Mas a geração millenium está chegando ao mercado trabalho, precisando alugar, dizem alguns estudos que terão pouco interesse em comprar ou fixar território, mas muitos compraram certamente. Esses sim eu acredito que vão usar processos que talvez dispensem algumas etapas que hoje parecem indispensáveis e porque até todas.

O caminho que eu mais acredito hoje é uma abordagem híbrida, com imobiliárias e corretores fazendo o que já fazem hoje, mas focando na experiência do cliente e experimentando novas formas de fazer negócios ao estilo startup. Construindo um protótipo, testando, mensurando e evoluindo ou descartando de acordo com o resultado. E claro, se aproximando da tecnologia como uma forma de otimizar e agilizar tudo isso.